O “Efeito Genovese” e as nossas decisões

Imagine a seguinte situação: uma mulher está sofrendo violência ao vivo em rede nacional. Você está vendo isso. O que você faz? Imagine outra mais recorrente: alguém, anterior na fila da padaria, está oprimindo a moça do caixa. Nesse caso, o que você faz?

Esses dias recebi uma consulta sobre o chamado “Efeito Genovese”. Nem sei como isso foi parar na mídia. Trata-se de um tema antigo da Psicologia Social. É mais ou menos assim: em situações limites, quando existem diversos espectadores, existe uma tendência à diluição da responsabilidade individual, quando se trata de tomar providências. Em outras palavras, se alguém está precisando de socorro nessa situação, cada um dos espectadores supõe que o outro está tomando providências e o socorro acaba não ocorrendo.

A origem da teoria são os experimentos realizados pelos americanos Bibb Latané e John Darley após o famoso assassinato de Kitty Genovese em Nova Iorque, no ano de 1964. A jovem de 28 anos foi esfaqueada e violentada e implorou por socorro por mais de meia hora antes de morrer. Apesar do crime ter ocorrido em uma área densamente povoada e, segundo os inquéritos, 38 pessoas terem presenciado o ataque, ninguém chamou a polícia.

Depois disso, foram feitas pesquisas e simulações e os cientistas daquele momento criaram a teoria da “apatia do espectador” (bystander apathy), ou “Efeito Genovese”. Quer dizer: Quando a gente sabe que tem outros espectadores para o absurdo que estamos presenciando, tendemos a achar que alguém outro vai tomar as providências necessárias e, portanto, não precisamos fazer nada. Vale também a lógica contrária: as pessoas tem mais probabilidades de agir, quanto menor for o número de testemunhas.

Não tenho dúvida de que coisas assim ocorrem também no nosso trabalho, na família, nos nossos projetos, na vida cotidiana da gente. Achei que a chefia iria perceber… Que os outros sócios iam questionar… Que a família estava mobilizada com a questão… Que o meu vizinho tinha ido lá ver o que estava acontecendo com o outro vizinho. Vulgarizando, é um pouco como a velha história do cachorro que tem dois donos. Pode-se tentar usar a teoria do Efeito Genovese para explicar muitas das nossas omissões diárias. Mas, infelizmente, isso não resolve absolutamente nada. Yes, shits happen, mas nós somos sujeitos capazes de responsabilidade e esse é um dos nossos diferenciais em relação aos outros bichos.

Nossas palavras, nossos gestos, nossas ações, assim como o nosso trabalho e nossa participação política fazem muita diferença. Se não mudam o mundo completo, mudam um pouquinho dele, pelo menos o entorno mais próximo. E fazem absoluta diferença quando diz respeito a nossa vida pessoal, disso ninguém há de ter dúvidas.

Nesses tempos de conexões digitais e de câmeras por todos os lados, é compreensível que estejamos tão bem treinados para sermos espectadores virtuais de tudo que acontece. Acabamos usando essa lógica também para lidar com o mundo concreto dos nossos problemas. Só que daí tudo se confunde um pouco e acaba que ficamos desejando que todos os nossos problemas sejam resolvidos na forma de paredão, com voto popular.

Não acontece assim. E agente está destreinado para lidar com a forma em que de fato os problemas nossos e do mundo se dão. “Efeito Gênovese”, ou “ Vício Contemporâneo de Espectador (VCE)”, a questão é que somos sujeitos capazes de responsabilidade e, enquanto cada um não se responsabilizar pelos seus próprios problemas, pelos do ser humano e pelos do planeta em que a gente mora, nossas necessárias decisões serão sempre esperadas de um outro. Esperadas de um outro que, simplesmente, não existe sem a gente.

É, ao assumir a nossa responsabilidade sobre as coisas, que encontraremos um jeito efetivo para comunicar o nosso desejo de separar do outro. Que saberemos com mais certeza a hora de ligar para o Disque 100, ou de arrombar a porta. E que reencontraremos o nosso poder de decidir sobre os rumos da humanidade.

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