O tempo e a espera

Cronos

O mercado e a conectividade dos dias de hoje comprometem nossa capacidade de suportar a espera. E essa capacidade é crucial para a nossa saúde psíquica. A vida é agora, isso é verdade, mas se tudo der certo e sobrevivermos ao agora, a vida será o depois também.

O carpe diem e filosofia epicurista são muito sedutores diante da fragilidade da vida. Tão sedutores que o próprio mercado vive disso. Manda lindamente a gente consumir agora porque a gente merece e não pode esperar. Concede crédito agora se não aparecer pendência no sistema e depois oferece agora uma oportunidade única para negociar a dívida do cartão. É sempre como se não houvesse amanhã.

Vale para uma porção de coisas nessa era da conectividade. Mandamos uma proposta qualquer por e-mail às 22H00 e levamos o celular para cama ansiando por resposta até dormir frustrado à 01H30. Nossos amores pedem um tempo para pensar e ficamos tentando a cada hora, por mensagem, saber se já pensou. “Calma, parece que vai tirar o pai da forca”, diria bronqueada nossa avó.

Saber esperar significa saber domar a nossa ansiedade e isso significa não enlouquecer enquanto o que ainda não aconteceu não teve tempo suficiente para acontecer. Ser capaz de abrir mão da tentativa de interferir sobre aquilo que já não temos mais como influenciar a nosso favor. Já viu algum camponês em pânico porque a semente recém plantada ainda não brotou?

O e-mail com o projeto já foi, o que era pertinente fazer já foi feito, agora é com o outro. Da mesma forma que o tempo pedido na relação é justamente o clamor por um pouco de ausência nossa. Paciência.

Na fantasia coletiva de conexão total, na liturgia dos aparelhos e com à benção do wi-fi, fica muito mais difícil a gente se conformar com o tempo que as coisas levam para acontecer. E muito mais difícil não tentar adivinhar como o outro está usando esse tempo em que a gente sofre esperando. Afinal, a recomendação do mundo não é para que estejamos em rede e presentes o tempo todo? Se não para que tanto mobile e tanto pacote de dados com velocidades fictícias?

Será que já analisaram o projeto e não gostaram? Ou será que entrou na caixa de spam? Não leu a mensagem porque está com aquela outra pessoa? Ou porque está no batizado da sobrinha? Não sabemos o que será, mas queremos saber e queremos agora.

Imagine décadas atrás quando a noiva ficava esperando o sujeito voltar da guerra para finalmente se casar. Ou antes do celular, quando os casais marcavam um encontro na frente do cinema e, por alguma razão, um não conseguia comparecer. Será que isso era tão raro? Como suportavam? Com mais paciência.

Não é à toa que se fala tanto na ansiedade como novo mal do século. Esperar está fora de moda, é coisa de loser, de quem não tem atitude, de quem não tem gestão, de quem não está no FB… Como, nesse contexto, vamos aprender a ter um pouco mais de paciência para aquilo que ainda não é e talvez nem seja?

Paciência até que chegue a resposta, até que seja suficiente o tempo que o outro precisa, até que a gente consiga entender, até que a saudade passe, até que comece de novo a primavera…

 

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1 comentário

  1. Excelente artigo. De fato, convivemos com esta ansiedade diariamente. As reações a nossas provocações, costumam tardar ou simplesmente não acontecem. É verdade que paciência é fundamental, mas não temos muitas opções. Apenas procurar provocar na melhor forma e na melhor oportunidade.

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