O Marketing e os nossos sonhos

salvador-dali

Acho que uma das melhores jogadas de Marketing que já existiram, foi a daquele padeiro português, de outro século, que deu o nome de sonho para o seu doce de padaria. Não consta que tenha sido reconhecido pela vasta literatura da área. Sequer sabemos seu nome, mas foi, sem dúvida, um lance mais acertado do que muitos do “branding” contemporâneo.

A sabedoria popular divide duramente nossas projeções oníricas entre sonhos e pesadelos. No geral os sonhos são aqueles que não nos afligem demais e aqueles dos quais gostamos de lembrar. Mas sonho bom mesmo é aquele que foi delicioso.

Pode ser por isso que chamamos de sonhar, quando falamos acordados das melhores coisas que almejamos.

Pensando, contudo, nesse fenômeno psíquico que são nossos sonhos e pesadelos noturnos, não parece algo que mereceria, no mínimo, um pouco mais da nossa atenção científica?

Seja qual for a maravilha ou o perrengue que vivemos em cada um de nossos dias, quando chegamos em casa e conseguimos dormir, ocorre de termos sonhos à noite e lembrarmos deles de manhã. Mesmo que de maneira confusa. Coisas meio loucas, mas que provocaram alguma coisa na gente. Algum arrependimento difuso, alguma saudade sem endereço certo. Quem sabe uma sensação de revelação lógica ou de revelação mística.

Quando estamos dormindo e sonhamos, vivenciamos intensamente coisas que nos pareciam impossíveis e/ou proibidas para nós mesmos. Só que isso acontece enquanto estamos quase inertes em nossas camas! O cinema é a arte que sempre brincou melhor com essa nossa esquisitice humana. Parece que ele nasceu disso.

“Minha alma saiu do corpo”; “um demônio veio me aterrorizar”; “minha vozinha morta me disse assim”;  “era a minha casa, mas não era”; “nós nos beijamos e pareceu tão real!”. Realidade ou ficção, resgate ou projeção para o futuro, os sonhos nos intrigam.

Esse negócio da nossa espécie ter a capacidade de sonhar sempre esteve no radar dos grandes pensadores humanos desde Aristóteles. E essa é uma das razões pelas quais considero Freud um desses grandes pensadores.

No seu tempo histórico, e sem idealização de completude, Freud soube empreender intelectualmente no sentido de uma compreensão melhor e necessária sobre os nossos sonhos. E fez isso com a seriedade e a obstinação de um médico-cientista avançado, do século XIX. Só isso, já considero um trunfo suficiente da Psicanálise no debate científico.

Ele propôs, numa época em que não sabíamos quase nada sobre neurônios, que quando a gente sonha de noite, descarregamos algo de alguma parte de nós, que precisava mesmo ser descarregado. Vastas emoções e pensamentos imperfeitos que ressurgem deslocados e condensados durante o nosso repouso. Daí a elaboração mais polêmica de que o sonho é uma espécie de realização de desejos inconscientes.

Avançando na teoria científica, Freud tentou em “A Interpretação dos Sonhos”, publicado na passagem para o século XX, iluminar os caminhos humanos sobre como buscar nos rastros dos nossos sonhos, as pegadas dos nossos desejos mais profundos. Talvez tenha sido mesmo o principal marco teórico freudiano e a pedra fundamental da Psicanálise.

Se toda ciência precisa de um problema para resolver, Sigmund Freud propôs um grave, o do Inconsciente. E tratou do sonho como uma possível ponte para ele.

Ficou mais difícil para a nossa inteligência humana, depois disso, reverenciar o sonho como vaticínio ou presságio, transcendência ou religião. Ele trouxe o sonho para dentro da gente mesmo e escancarou uma outra dimensão nossa.

O sonho de padaria, assim, se propõe na vitrine nossa de cada dia, com seu nome genial e sua aparência ainda suculenta, satisfazer por algumas moedas o nosso desejo oculto. Talvez não esteja vendendo por falta de inteligência na gestão do PDV. Mas tem infinito potencial!

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